segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

fantasma...


não continuo...
AGORA SIM,SEI!...
sou prisioneiro
de um fantasma que me roubou
o mundo...
de ti...
por ti...
para ti...

afonso homem


sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

que estranha forma de vida

" foi por vontade de Deus
que eu vivo nesta ansiedade
que todos os desejos são meus
que é toda minha a saudade
foi por vontade de Deus

que estranha forma de vida
tem este meu coração
vive de vida perdida
quem lhe daria o condão?
que estranha forma de vida

coração independente
coração que não comando
vives perdido entre a gente
teimosamente sangrando
coração independente

eu não te acompanho mais
pára, deixa de bater
se não sabes onde vais
porque teimas em correr?
eu não te acompanho mais

se não sabes onde vais
pára, deixa de bater
eu não te acompanho mais "

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

" até onde quiseres ir "

largo a tristeza
num lugar delicado,
perpétuo,
onde pernoito
a suspensa ferida
que finges morrer...
o silêncio desgasta-me,
acorda-me,
na minha suspensa noite de vento...
vou atravessar a manhã,
tremenda,
quando me ensinares os olhos,
a brisa,
o rumor lento da morte,
um outro corpo,
" até onde quiseres ir. "
é possível que as paredes rebentem
e o silêncio deste rio
não me visite...
quando quiseres sonhar,
dormir,
hei-de habituar-me ao escuro,
de alguém oceânico que te espera...
na enormidade que começa no princípio do mesmo sono.
as noites destas canoas,
procuram-te,
e eu despeço-me delas...
sob as águas do teu Tejo...
daqui... avisto-te...
desisto-me de ti...
morrendo-me...
de mim...
recolhe o meu olhar,
na sombra de um silêncio(...)

afonso homem

luz...

a luz dói,
fere,
a luz magoa...
a luz é um demónio
na lagoa clara dos meus olhos...
quero apenas um anjo,
um Deus de sombra...
um altar,
a minha escuridão,
um jazigo
e um clarão de silêncio...

afonso homem

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

beautiful


beautiful thought of you...
PARA TI!...

forgotten fairytales

a manhã desmaia
o teu regresso,
mas tenho medo que não consigas
até a mim,chegar...
dou-te esta certeza,
que sempre pudeste ter...
permaneço aqui!...
SEMPRE, NESTE TEU LUGAR!...

afonso homem

crucificação dos sonhos


Colossus e a sustentação do mundo



segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

flor de silêncio

devoro,
com dificuldade,
o delírio de respirar
e escrevo-te algo,
fora da paisagem,
que te fizesse doer...
algo de violência, algo de
cor a fugir,
que te fizesse sofrer...
mas fiquei algo de perder a memória,
no veleiro da noite...
algo de mim mesmo,
sonâmbula beira-mar,
casúlo de ponta a ponta
na água da mais soberba ternura...
finge-me...
veste-me de penumbras... muito para além da pele desenhada
onde o coração bate...
nascer com a cor dos olhos...
o silêncio... sem azuis... sem abrigos...
a morte esquece,
sabendo,
que o doce do peito
é mais forte que a tua flor de silêncio...
se ponderasses 
no teu pormontório,
saberias que eu voltaria
a nado,
nas tuas águas paradas,
a escrever-te o que mais se parecesse com a saudade...
tarde... tarde... sempre tarde...
obrigado solidão...
" onde te deixei morrer... "
o silêncio rebentará, só para mim...
único sangue incandescente que me entra no corpo.
lentamente.
que nem chega a ser meu.
sou o debruçado tronco,
o receio,
a raíz que extingue o mundo...
só sei contar o medo,
" só sei contar esta falta que me fazes... "
só sei contar o silêncio...

                   afonso homem

fallen angel

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

excertos de " fazes-me falta " de Inês Pedrosa

" deixa-me ser apenas a beleza magoada da tua vida,
enquanto a vida for tua.
trago-te no riso enterrado, nas lágrimas que me lançaste, escadas de incêndio para a sabedoria da felicidade, na pele escaldada pelo brilho da noite, depois do mar.
falámos demasiado para que eu recorde do que falámos, vivemos demasiadas vidas para que eu as possa separar. para que eu me possa separar de ti.
sem teoria eu, infiltração quotidiana do teu ser, não existi.
olho-te ainda na esperança de descobrir, à distância definitiva de tudo quanto fui, a raíz desse vento que te levou para tão longe de mim.
morreste-me antes que eu morresse - e não consigo morrer sem ti. nunca consegui.
todos os dias da minha vida estive contigo - como se todas as amizades anteriores fossem só o caminho para chegar a ti, como se todas as amizades posteriores fossem apenas a ausência de ti.
mas ninguém nos diz como se sobrevive ao murchar de um sentimento que não murcha.
nunca soube viver sem ti - encontrava-te em todos os sonhos, à beira de uma explicação que nunca chegava mas que eu sabia existir.
deixa-me morrer dentro de ti - deixa-me escolher morrer dentro de ti, porque só essa morte me falta.
não te amei mais nem menos por te ter escolhido tarde, o coração domesticado à força de sonhos interrompidos."

domingo, 26 de dezembro de 2010

sábado, 25 de dezembro de 2010

jane siberry - it can't rain all the time

boa noite solidão

"boa noite solidão
vi entrar pela janela
o teu corpo de negrura
quero dar-te a minha mão
como a chama de uma vela
dá a mão a noite escura
quero dar-te a minha mão
com a chama de uma vela
dá a mão a noite escura
os teus dedos, solidão
despenteiam a saudade
que ficou no lugar dela
espalhas saudade p'lo chão
e contra a minha vontade
lembras-me a vida com ela
só tu sabes, solidão
a angústia que traz a dor
quando o amor a gente nega
como quem perde a razão
afogamos nosso amor
no orgulho que nos cega
com o coração na mão
vou pedir-te sem fingir
que não me fales mais dela
boa noite, solidão
agora quero dormir
porque vou sonhar com ela
boa noite, solidão
agora quero dormir
porque vou sonhar com ela"

jorge fernando

glaciar de um silêncio azul


decidi,
da insónia,
fascinado,
um paciente e desprendido
regressar ao olhar
submetido ao súbito veludo
de uma harpa...
não consigo esquecer
o vago que me isolou...
se uma cítara,
se o interior granítico
do pólen...
não há ventos
que se sosseguem
próximos dos cemitérios
sostenidos de uma gota solta,
vagarosamente nota...
música...
silêncio...
atrevo-me,
flutuante no sorriso,
despedir-me do som sulcado,
em círculos escondidos
de memórias...
que os dedos surpreendam
o lugar,
a forma,
que se há-de desprender
no habitante medo
que desabar de um coração
que ainda oiço latejar...
"não há-de chover sempre..."
não consigo despertar
a vida,
entre a noite e o dia,
porque,
não morre em mim,
o suspiro,
o desejo que amanheças...
cegar-me-ia,
essa excessiva claridade,
que por um instante,
te fizesse existir...
posso suportar a sombra,
mas nunca uma luz tocada,
que me aquecesse,
que me ferisse...
acabo assim,
dormindo...
morrendo...
houve um dia,
que consegui ser eu...
contigo!..
depois,
quase nada...
neste iluminado
glaciar azul do impossível...


afonso homem

thought of you

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

mancha de luz sonâmbula

permanecerá,
em mim,
a estátua dos teus passos,
se te suspender,
se te nomear,
nesta mancha de luz sonâmbula,
em penumbras lentas, onde cintilam aves,
onde perfumam desfeitas e
labirínticas maresias dos sentidos...
adormeço as sombras ténues
que apertei nas mãos,
"a vida é uma coisa. o amor é outra."
parámos na sedução flutuante dos olhos...
essas constelações luminosas
para além do turvo e vagaroso sonho.
fingimos que fomos vida,
lírios,
ou anjos,
" duma lágrima triste."
se humildemente sobrasse o obsessivo
silêncio da tua assustada passagem,
a seda das tuas águas,
iriam transbordar os limites da alma
de um coração em desordem...
e lembro-me...
do pólen que não consigo acordar...
gota a gota,
o orvalho habita-me...
na solidão dos pássaros,
no silêncio sanguínico do anoitecer,
num sítio ignorado,
onde transpiram os olhos e
os corações escrevem subterrâneas pétalas...
é sem igual,
a escuridão do espírito,
súbita brancura dos ombros
numa invisível e delicada voz...
vou atar o teu nome,
de porta em porta,
em cada imenso poema...
o destroço surpreende o escombro...
as travessias dos pulsos...
pernoitámos na paixão jovem,
quase morta...
na boca,
choveram veleiros do teu mar...
terras...
hemisférios...
viagens...
vive!...
existe!...
bebe, depois do medo,
calma,
a fracção do meu mais prateado silêncio...

afonso homem




noite polar

enquanto perguntas,
escrevo lugares por aí...
depois,
amanheço cidades
que ninguém inventou...
na margem apressada onde a pele
se acende e as tempestades
irão gemer o teu mais
doce nome que por mim invento...
durmo-me, lencóis sem corpo,
em catedrais majestosas do silêncio...
não permaneço no despertar
do dia que acorda.
cubro-me, no frio calado
que nada me diz de ti...
tempo do mesmo tempo
que descobre o teu sorriso
que em mim, nunca escondeste...
são as mãos que se entrelaçam,
quentes,
no acordar de uma cama breve,
no levantar hospedeiro,
de uma qualquer manhã...
há-de surgir um rasto,
um cometa de infinitas existências,
quando eu, silêncio,
te tocar como linho.
parei na vida...
quando a luz me escurecer,
na mais distante janela aquática
que se abrir...
e o mundo,
há-de fechar-se
quando dormires num sono
de poemas intímos,
tão próximos de nós,
tão distantes de mim...
é esse teu frágil corpo
incerto que me pergunta
porque escrevo estas mariposas inteiras de ternura...
na espuma dos dias,
a tristeza entra despida
na única porta que fechei
como chuva...
e Deus!...
como dei por mim...
num castelo que esculpi...
das palavras, ao instante de uma estrela que tombei por ti,
nas distâncias longas que quiseste
tatuar em mim...
pois mais morto me terão,
por essa luz que não me deixaram ser...
e se, se inventar um sol Índico,
hei-de ser a noite polar...

afonso homem



terça-feira, 30 de novembro de 2010

sorrow - photo by: al wafyh

assim como tu...

o silêncio
não se quebra em mim...
alimenta-se,
faminto,
das veias desnorteadas no meu compassado corpo
fora desse mesmo sangue...
é, pela vertigem do meu sopro,
é, pela margem da minha seiva,
que se deita menino...
a dimensão das minhas palavras,
é um escombro onde o que sinto se habita,
e o que digo se morre nas vertentes de um precipício.
eis o que sou...
resíduo...
e a morte que mais amo,
é aquela que não existe,
pois só ela, despida,
mora na minha imaginação...
assim, como tu!!!...

                       afonso homem

julie and jan

saudade...

a saudade,
é uma cidade mulher vestida
de ruas tímidas e ondulantes,
de risos pendurados às varandas
onde o sol penetra
como luz vaga da manhã...
a saudade,
é um bairro menina vestida
de avenidas envergonhadas e insinuantes,
de sorrisos estendidos nos varais
onde a noite invade
como luz rara e vã...
a saudade,
é pintada a seda
com panos de linho cru...
meu amor,
a saudade que se dispa,
a saudade, meu amor,
a saudade és tu!!...
 
                              afonso homem

apophysis peaches en regalia

o silêncio das cores

voarei na andorinha estonteante
do coração,
num céu fechado de cinza...
o súbito lugar branco
onde deixei o azul do tempo...
confundo-me,
com o deambular longínquo da noite
ensanguentada na boca.
são pássaros e flores
anunciando o meu eu e o silêncio...
depois,
verás o sorriso lilás
onde o vento é concha
perfumada de um ausente retorno...
apresso-me no abandono,
na falésia de uma penumbra.
e sabes,
permanente,
és um punhal de ouro absoluto,
no desmaio escurecido
por onde tombam os dias?...
medito na ilusão feminina do meu mar
letárgico mais lento...
prolongo-me no teu nome
demoradamente límpido,
no recolher brevíssimo das ondas...
rubro,
pernoito em ti,
e finjo-me morosamente morrer...
sem esplendor,
sem a dimensão das madrugadas mais escuras,
sem melancolias demoradas,
sanguínicas,
sem sílabas de negros abandonos.
bebo a insónia violeta e pressentida
das aves... a dor...
atrás da espuma e das pérolas,
um gemido...
um astro...
um espasmo...
mas quando acordares, no vermelho rasto da memória,
o instante amanhecerá
nas varandas púrpuras dos olhos...
SEPULTA-ME NA RESPIRAÇÃO
DAS ÁGUAS PLÚMBEAS DO ÚLTIMO SONHO!!
é tarde e cinza
o meu olhar, quando repentinamente, um gomo de luar,
se " fulgura no indício do magoado
desejo na densa escuridão dos teus passos."
esta é a casa de assombro
por onde me sinto seguro,
e onde nem o nada me encontra...
hei-de pintar-me,
isolado,
em todas as cores impossíveis
do silêncio...

               afonso homem


sábado, 27 de novembro de 2010

o declive do suicídio

não é o fim que se principia,
mas o começo de um novo rumo.
tantas palavras,
tantos gestos e não haver o que quer que seja,
de novo...
o que dizer de tudo o que foi feito,
e alguma coisa poderia ter sido ao contrário?
as horas taciturnas tardiamente consumidas,
jamais se poderão dissipar,
e escondo-me no espaço azul entre as nuvens...
sou bem vindo ao início de um agnóstico sonho,
ao declive do suicídio,
ou ao grande desencanto com a vida...
o lugar da utopia
é o mais sincero elogio de tudo o que desisto.
não posso ter mais que um lugar presente
enquanto me divido em tantos espaços do meu tempo.
é estar aqui, e não estou,
sem saber se sou ou se fui...
o corpo emagrece,
a mente se consome,
e nada lhe mata a sede sedenta de ter fome!!
há algo mais para além do fracasso,
do engano que dei à perfeição...
há algo que não foi sentido no meu instante de exaustão...
que singular bocado de tempo
entre a solidão sombria de um curioso momento
e a expansão funesta de um dia o ter conquistado!...
e foi tudo ou nada
o que a vida me conquistou... fiquei aqui...
não te espero,
por alguma razão...
não te encontro,
talvez porque não queira ou
a fadiga me encontrou...
sabes,
o amor tabém se cansa, desespera?...
e o meu que não espera,
desesperado se cansou...
liberto o espírito, solto o corpo e tudo o que vem
é um espaço fundo, cinzelado,
obra-prima, cansaço aberto,
mas não fecundo!!!...
e isto, apenas num segundo...
as horas passam e não falam,
mas oiço o rubor do seu sussurro,
na boca fechada que é o teu mundo!...
vou sair ou fechar-me bem dentro do que sou,
na memória residente,
e aí, poderei calar-me e não dizer o que trago aqui no fundo!!
e eis-me aqui!...
RISCO AS PALAVRAS DE QUE NÃO GOSTO.
É TER, DE ALGUMA COISA, A VONTADE!!!...
A VONTADE DE TARDIA DE TER ALGO,
SEM FORÇA,
SEM GOSTO,
E SÃO TODAS AS LETRAS QUE NÃO TÊM ROSTO;
DESSAS, NÃO ME RECORDO E NÃO AS ESCREVO;
DESSAS, NÃO ME LEMBRO E NÃO AS CHAMO...
AS OUTRAS,
NÃO SEI SE DEVO SENTIR,
ESCREVER,
OU DIZER QUE AS AMO!!...
E HÁ,
O MOMENTO EM QUE A PALAVRA CHEGA AO FIM,
TRANSTORNADA,
TODA ESCRITA,
NÃO FALADA.
E HÁ APENAS TUDO ISTO QUE EU NÃO SEI, EM MIM...

afonso homem






terça-feira, 23 de novembro de 2010

abandono...

às vezes,
o vidro é uma planície
onde atiramos a velocíssima geada do corpo...
depois,
chegará o desassossego,
durante a vertigem,
e as marés
como subúrbios,
virão rodopiar as flores fechadas das águas.
quão elegante é
esta brisa que te abriu,
ao esconder-me no longínquo
fundo do mar...
olho-me,
e choro-me no espelho
flutuante do teu gesto.
és pétalas em mim...
um único coração que me nasceu
no breve abandonar de um jardim...
sentado,
no gemido do orvalho,
aventurei-me na tua ausência...
e dormirei morrendo,
meu amor,
onde te deixei em silêncio...


afonso homem

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

à minha eterna companheira cósmica...

explodi à boca,
de acender um rosto...
hei-de vê-lo,
hei-de lembrá-lo...
cercam-te
extraodinários lábios de ternura...
às vezes,
acontencem águas que surgem até onde bater o ruído imaginário do
coração...
és um poço sublinhado,
e a pele aparece
com o horizonte possível do teu ondulado centímetro...
e eis,
todo o teu comprimento
desde as areias ao raro aparecer do sol...
penso-te,
e a vida recua com ondas humilhadas de medo.
nela,
fascinam-me o rebentar dos teus cabelos em desordem...
devagar,
na sépia da marmoreada carícia, devolvo a memória do teu único sangue...
sabes,
na ondulação das tuas veias,
ainda construo pontes?...
itinerários explêndidos,
rumos,
cumplicidades,
onde a espuma te procurar na dimensão impensável do quanto te penso...
que pedaço de sítio aprisionei o meu humano corpo?
ah!!
os afectos!...
o fogo e o cansaço!...
a vaga das sombras!...
a fome!...
a sede!...
desde o verbo,
à devastação do silêncio...
afonso homem

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

AO MEU FILHO

nunca te disse,
que o amor maior
é um céu de linho que me alcança,
é um sangue inimaginável de flores brotadas
de lábios despidos...
nunca te disse,
que a tua vida me compõe pianos de água
sobre a noite com que me tapo e durmo...
nunca te disse,
que dás nome ao mundo,
incomensurável,
dos lírios dos dias, inteiros...
nunca te disse,
o que és em mim...
nas avalanches dos olhos,
nas derrocadas das mãos,
neste amor com que te trago na calmia
das ondas demoradas
destes dedos, suspensos...
nunca te disse,
que sou teu,
que és meu,
que destapas o sol erguido,
nun dedal de veias rompidas...
nunca te disse,
o mundo...
esse lento vagar de estrelas
do teu colo concebido,
esse caminho andado, sofrido...
esse sorriso de luz que é vida...
nunca te disse,
a palavra toda, a mais bela,
a mais sentida...
nunca te disse,
que amanhece o poema tecido com fio de luar,
esse riso que é alma,
que é ombro,
que é querido...
nunca te disse,
que és letra,
que és número,
que és jardim de cassiopeias,
que és canteiros molhados de silêncio...
nunca te disse,
que és voz do perfume
que enfeita as folhas de um peito regado...
nunca te disse,
que és flor deitada na margem da boca
que é curva,
que é esquina,
por onde me percorro e me habito...
nunca te disse,
que és rio imenso do outro lado de mim...
que és pão e vinho com que me alimento,
a estrada, o sonho por andar...
nunca te disse,
que és pólen dos sentidos,
que és vaga,
que és espuma do mar...
nunca te disse,
que és verso feito de vento,
barco à vela do olhar...
nunca te disse,
que és a noite esguia,
que és a lua amante que nos vem deitar...
nunca te disse,
que és regato,
que és nenúfares,
que és o sossego por contar...
nunca te disse,
que és a sombra que me guia,
que és a brisa do relento,
onde me acordo e me adormeço...
nunca te disse,
que és a água,
que és espelho,
onde me bebo e me conheço...
nunca te disse,
que és a infância amada,
que és a chuva,
que és o soluço e a ternura serena por encontrar.
nunca te disse,
que és pétala da mão dormida,
que és lagoa agreste
que me escoa o choro e me acorda a canção...
nunca te disse,
que és riacho e a melancolia
das horas que tardam perto,
tão perto da razão...
nunca te disse,
que és a história mais linda dos meus livros,
que és parágrafo e os malmequeres,
que és a minha oração...
que és o estrondo dos trovões,
que és as nuvens,
que és o mel e o coração...
nunca te disse,
que és fruto da romã,
que és a gota da maré,
o branco desmaiar da manhã...
e um dia, chegarei ao fim...
e nunca te disse,
que és Deus,
que és morte e vida,
QUE ÉS TUDO,
TUDO O QUE HÁ EM MIM!!...
afonso homem

terça-feira, 16 de novembro de 2010

quem sabe se chegaremos ao luminoso branco dos olhos, pelo lume da boca?... foi há tanto tempo que escondi a breve melancolia e o medo de te perder. a noite levantou-se na tua ausência, na paisagem do silêncio... quem sabe se chegaremos, os dois, no delicado espelho da manhã?... depois, calados, sepultamos o fundo do olhar da noite, que nunca ousámos ser... afonso homem
deus!!...
como eu odeio
pensar-te...
não... não me fazes falta...
porque fazeres-me falta, pertences-me...
e isso, eu sei!...
dias e dias que ocupas este lugar
sem pertenceres a quase nada do que sou,
faz-me pensar que apenas sem ti,
tudo o que escrevo,
é tudo o que eu queria, de ti, em mim...
canta uma vez mais,
em bancos imaginários,
este ser poeta,
este ser mais alto...
em mim!!...
oiço músicas em teu redor
no poema de véus extraordinários que te rodeiam...
será que estou certo,
neste marear de sereias
que te salgam os mais vastos oceanos de te conquistar?...
são tão pobres os meus poemas de te vencer...
não tenho frotas,
nem velas,
para rumar ao teu encontro...
perdoa-me por isso!!
sou a deriva sozinha,
sem rota,
sem vento,
que te procura com estes nomes estranhos
de entranhas obscuras,
que te chamam sem marés do que sei...
as águas não se inventarão,
sem ti!!...
afonso homem